CRÔNICAS DE ANINHA!

Autor: Nenhum comentário Compartilhe:

 

Aninha, 38 anos, licenciada em História pelo CEM “Barão de Mauá”. Gosta de bom copo, boa mesa e boa cama! Ultimamente tem sido chamada de Diaba Loira, Mosca na Sopa e Capeta em forma de gente, por viver azucrinando quem merece. Cara de pau de nascença, espírito livre, não se intimida diante da mediocridade e da inveja de alguns e sentimento de vingança de outros, ou de tudo isso junto.

Vira e mexe gosta de citar Zagallo: Vão ter que me engolir!

Enfim: Aninha é uma figura expansiva e solar, “queiram” eles ou não, em torno da qual só resta aos outros orbitar!

Ah! Modéstia é seu forte!

 


Vô Luiz e seu ponto de vista a respeito da leitura.

Já passava das 19 horas, o céu estava carregado de estrelas, a brisa era cálida e trazia os perfumes da noite, e as corujas vez por outra piavam sobre o telhado da casa de farinha. Vó Seba nunca espantava as corujas. Aliás, sempre deixava para elas uma lamparina acesa com azeite, para que elas se alimentassem dos insetinhos que por ali rodeassem. Para Vó as corujas eram símbolo de inteligência e sabedoria. Nunca de mau agouro.

E aproveitando toda essa beleza, todos se reuniram no terreirão após o jantar para ouvir o que Vô Luiz tinha a dizer.

Entre os adolescentes estavam Gêja, Maria, Severino e Manoel, e entre os bruguelinhos estava a incansável Matilda, com suas tranças louras amarradas com fitas azuis que realçavam ainda mais seus olhos irrequietos incrustados naquele rosto pálido de lábios carmim. A família sempre tinha a impressão de que ela estava febril, mas diante de suas garrulices, todos mudavam de idéia e chegavam à conclusão de que assim como Genaro, ela também havia fugido do céu! Genaro, claro não podia faltar, e para surpresa de Vô e Vó, Wenceslau também estava por lá. Seus pais passariam alguns dias em Juazeiro, e ele ficou na roça com Vóinha. Wenceslau era diferente de todos nós. Apesar de também ser Um Pernambucano da Invasão, ele não tinha os olhos verdes esfuziantes, e sim duas esmeraldas límpidas e cristalinas que transmitiam ao mesmo tempo paz, melancolia e certa elevação espiritual. Vóinha dizia que seu nome era homenagem a um príncipe holandês, aliás, o sobrenome de solteira de minha avó é Venceslau! Não sei de onde eles tiraram esse príncipe, mas o certo é que Wence, sempre fora diferente, e mesmo depois de adulto, carrega em suas feições e em seu jeito, algo de pueril, uma inocência perene, linda…

Gêja conta que era muito engraçado ver todos reunidos, pois Vôinho sentava-se em sua cadeira de balanço, com um pé nela e outro no chão (parecendo o Pantaleão de Chico Anysio), e Vóinha sentava-se num tronco grande que servia de banco, com todos os miudinhos a seus pés e os mais velhos à sua volta. Vez por outra, encaracolava o cabelo d’um, acariciava os pezinhos d’outro e das meninas maiores, apertava as bochechas que era para “dar cor”…

― “Apois” meus “buchudim”, hoje Vô quer falar sobre a importância da leitura e do conhecimento, visse?! Estudar e buscar conhecimento serve para uma vida inteira, pois o “cabra” pode perder tudo nesta vida: casa, terras, dinheiro e até família, como acontece nas guerras, mas o que ele tem dentro da mente, isso ele não perde nunca. Mas para tudo isso, precisamos aprender a ler, e bem.

Tudo o que chegar a vossas mãos leiam. Seja jornal, revista, conto, fábula, romance, cordel ou crônica!

Quando passamos a ler jornais e revistas, começamos a perceber o que se passa a nossa volta. Mas cuidado! Temos que ler e interpretar e disso formar nossa própria opinião, para que possamos torná-la pública, mas sempre baseada na razão. Só com informação é que podemos aprovar ou não, contestar e lutar por nossos direitos! Mas lembrem-se: como cidadão, também temos deveres! É por isso que a Democracia voltou a reger nosso país. Passamos anos terríveis, vocês nem queiram saber!

Quando lemos contos e romances, geralmente nos transportamos a lugares que nunca imaginaríamos poder conhecer, e também nos identificamos com os heróis e heroínas, com as donzelas e os cavaleiros, como no cordel do Pavão Misterioso*! Mas se um dia vocês se identificarem com os personagens grotescos, de má fama e má índole, aí vocês podem estar com um desses dois problemas: consciência pesada ou falta de amor próprio. E isso não é bom de jeito nenhum!

Aproveitando a baforada de Vô no cachimbo, Manoel pergunta:

― Mas “Vôinho”, e se o texto não tiver nada de bonito, elegante e engraçado. O que é que a gente faz? Porque às vezes lemos algumas coisas que não tem nada de interessante…

Vô sorriu como quem já esperava pela pergunta, e respondeu:

― Nesse caso meu filho, simplesmente leia e ignore, já que não vai lhe acrescentar em nada e você não se identifica com ninguém! A única coisa desinteressante que não devemos ignorar é bula de remédio!

A molecada caiu na gargalhada e Vó aproveitou para falar:

― “Ochi”, eu, por exemplo, quando leio O Bem Amado identifico na hora as três irmãs de seu avô, como as irmãs Cajazeira, né não Lua?! (apelido de meu avô, geralmente por lá Luiz é chamado ou de Lua ou de lula).

Vô mais uma vez gargalhou, concordou e disse:

― Eu não me “avexo” com a comparação de Vó, pois quando os autores escrevem geralmente eles não direcionam a alguém em específico, eles enxergam o geral, o que ocorre à sua volta de forma abrangente e não limitada a uma currutela ou a uma cidade…

E baforando mais uma vez, conclui com olhos melancólicos:

― Sabe Manoel, escrever é um dom, e dos mais belos. O problema é que algumas pessoas que lêem (e se identificam com personagens grotescos) têm o coração tão pesado pelas maldades e maledicências praticadas por elas mesmas, têm a mente tão poluída pela inveja e pelo rancor, tem a alma tão empedernida, pedante e arrogante que ao ver um simples texto acham que estão sendo atacadas em sua dignidade. E nem sempre é assim, pois pior que escrever um texto desprovido de elegância, bom gosto e informação, é jogar lama na vidraça de uma pessoa, tendo certeza absoluta de que essa pessoa é inocente. Isso sim meu filho é cruel e desumano!

Depois dessa fala, Vô suspirou, levantou-se, abençoou os netos e foi para dentro de casa dizendo assim:

Nem todos para os quais o cão late são ladrões.

Noites do Sertão (Milton Nascimento e Tavinho Moura)

Não se espante assim meu moço com a noite do meu sertão. Tem mais perigo que a poesia do que o julgo da razão. A tormenta gera história é tão vida quanto o sol, são cavalos beirando o rio, é o corpo da menina ofegante ali do lado ansiosa pelo tato do carinho arrebatado do calor da tua mão. Não se engane que o silêncio não existe no anoitecer. Fala mais vida que a cidade, tem mais lenda a oferecer, não demore ela é donzela mas conhece outra mulher, seu desejo e a madrugada só esperam teu carinho quando o ato terminado.
Chegue perto da janela olhe fora e olhe dentro, a paisagem se molhou.

*“O Pavão Misterioso”, folheto de cordel da autoria de José Camelo de Melo Rezende, é a história da Condessa Creuza, a moça mais bonita da Grécia, conservada pelo pai trancada desde a infância no mais alto quarto do sobrado.Uma vez no ano, a moça aparece por uma hora ao povo, que vem de longe, só para contemplar-lhe a beleza. Um retrato dela chega até a Turquia, onde mora Evangelista, que se apaixona pela bela figura da jovem. Dirigindo-se à Grécia, ele encomenda a um engenheiro um mecanismo alado – o Pavão Misterioso do título – a bordo do qual consegue chegar até o quarto da moça, raptando-a, depois de vários perigos e dificuldades. (por Clotilde Tavares)

ATENÇÃO: Isto é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Somente eu, minha Prima Geralda e vó Seba e vô Lua (que Deus os tenha) é que somos personagens reais. Genaro também existe e é lindo como eu falei, tem hoje a idade de meu irmão. Wence também existe e tem a minha idade.

Na Chapa da Aninha é assim: ou você fica ao ponto ou você sai queimado !!!!

Ana Maria Gomes da Silva – contato: aninhabeauty@hotmail.com

Artigo Anterior

ALTIAQUI ENTREVISTA DELEGADO DE ALTINÓPOLIS!

Próximo Artigo

Temporada no Telhado Cultural Engasga Gato

Confira também

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *